Terça-feira, Novembro 10, 2009
Guardadores de rebanhos e gaivotas

Os rebanhos de algodão,
ao entardecer,
descem às pastagens dos nossos sossegos
e apenas a suavidade das gaivotas
reflectida nos teus olhos
parece querer abarcá-los.
Enquanto as nossas bocas
se arrebanham,
há um mar à nossa volta em gritaria
com o desejo de caber
na cegueira serpenteante das mãos,
ávidas em percorrer algodoeiros dóceis.
Abrimos, ao mar, todas as portas do peito,
e passámos a guardar os rebanhos
e as gaivotas dentro de nós.

Poema: Nilson Barcelli © Outubro 2009
Fotografia: Nilson Barcelli
Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, cedência, difusão, distribuição, armazenagem ou modificação, total ou parcial, por qualquer forma ou meio electrónico, mecânico ou fotográfico deste texto sem o consentimento prévio e expresso do autor. Exceptuam-se a esta interdição os usos livres autorizados pela legislação aplicável, nomeadamente, o direito de citação, desde que claramente identificada a autoria e a origem.
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Terça-feira, Novembro 03, 2009
Vejo-te

Vejo-te, nítida,
projectada sob as pálpebras cerradas,
aberta aos sabores proibidos do Olimpo.
Salpicada de estrelas,
és nuvem de pele macia
numa faina de seda frutada.
Ao compasso
da luz a ninar-te o coração, flutuo
nos fluidos de ti e passo,
num pestanejar,
a percorrer as estrelas contigo.
Vejo-te, nítida,
por entre as pálpebras descerradas,
mas nem por isso menos proibida.

Poema: Nilson Barcelli © Novembro 2009
Fotografia: Ilona-Pulkstene
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Terça-feira, Outubro 27, 2009
O alento desta arte de esperar

O alento desta arte de esperar,
paciente, está no feitiço da voz
do último silêncio de ti
e nos muros de finura
que entre nós interpões.
Díspar estátua,
salto os muros desatentos
e subo ao telhado
para escorregar pela caleira.
Ao cruzar com a janela,
passo leves os meus dedos
a beijar o vidro dos teus lábios.
Diva e gelatina,
atiras-me beijos em queda livre,
que me acertam em cheio
como um vaso de flores
no caminhante indefeso.
Vou tentando e esperando,
com a arte deste alento, que te lances
da janela e dês aos meus braços
o que me roubas faz tempo.

Poema: Nilson Barcelli © Outubro 2009
Fotografia: Stefan Gesell
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Terça-feira, Outubro 20, 2009
Esta noite

Esta noite,
viajamos sob a cauda
de um cometa em extinção,
a queimar laços que tombam apagados
para a negra vertigem do nada.
Esta noite,
sinto a mão a enferrujar
no amanhecer das tuas lágrimas,
delgado rio a estilhaçar margens
em sossego de aquário.
Nas próximas noites,
dorme comigo apartado do teu leito,
porque sou filho de um querer estrangulado
pelo asceta que persiste no meu peito.

Poema: Nilson Barcelli © Outubro 2009
Fotografia: Autor desconhecido
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Terça-feira, Outubro 13, 2009
Apatia

Andar pelas águas de um lago
sem espanto
nem pranto.
Sonhar ao ritmo das baladas
de um mar sem sal
nem vendaval.
Trazer dentro do peito
estagnada
a ordem contrafeita.
Desamarrar pelos cornos
no tumulto
o jazz da rebelião.
Beber das rotinas
os ferretes que cozem
a vida em fogo mole.
Esquecer que a mudança
é fruto viçoso do impulso
que faz o sangue vibrar.
Ignorar que a bola não rebola
sem um chuto
e que o voo não cai maduro do céu
sem a batalha das asas.

Poema: Nilson Barcelli © Outubro 2009
Fotografia: Autor desconhecido
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Terça-feira, Outubro 06, 2009
Rio do silêncio

A renúncia
marcada na areia dos dias,
como dunas a percorrer a pele,
a desenhar-se nos poros.
A distância
ampliada no olhar,
a penetrar na voz
de ouvidos metodicamente fechados.
O sol,
a debelar-se banal
à luz da prece dispersa na noite,
de mão retraída no brilho.
O descobrir
que para lá do fim
há uma pedra na matéria,
um nada, um muro,
alguma terra enjoada
e o rio do silêncio sem retorno.

Poema: Nilson Barcelli © Outubro 2009
Fotografia: Autor desconhecido
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Terça-feira, Setembro 29, 2009
Até já

Há pétalas aflitas,
mas também rosas seguras
como heras,
na viagem inquieta do teu corpo.
Sem que a nossa voz se apague
com o hiato da chama escurecida,
enquanto a luz
andar presa no teu âmago,
haverá fogo verdadeiro
no regresso dos teus olhos.
Vai, meu amor, até já.
Fala com os anjos e diz-me
da brancura da noite ao acordares.
Traz agarrada à cintura,
sem consoantes, a tua palavra nua,
líquida e sólida
como a certeza de te amar.

Poema: Nilson Barcelli © Setembro 2009
Fotografia: Henner_Hook
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Terça-feira, Setembro 22, 2009
Da beleza da gravata ao esplendor do verniz

Vejo, por vezes, o desconcerto
do insustentável mau trato da língua.
Então, porque o descuido que destroça a palavra
é distinto e redito,
imagino a vanidade do remo sem água
nos que se deixam molhar até à medula
com a chuva de tolices estampadas,
enquanto contemplam, acéfalos,
o remoinho do regurgitado.
Não há horas felizes nessa bravata de gargarejos,
onde o poema, ferido,
se contorce com vários trejeitos
[ouvindo aplausos à beleza da gravata
e ao esplendor do verniz]
à espera que o saber da palavra construa, enfim,
o sustentável bom trato do verbo.

Poema: Nilson Barcelli © Setembro 2009
Fotografia: Stefan Gesell
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